domingo, setembro 23, 2007

EU, TU... ÉRAMOS!

Às vezes as oportunidades surgem e não percebemos... quando isso acontece há uma grande probabilidade de perdê-la. Acho que vivi algo assim em 1999. A atriz Irene Ravache foi a Jundiaí apresentar-se com uamde suas peças que não me lembro muito bem o título, lembro apenas que era com o Marcos Caruso e Jussara Freire.
Enfim, no final do espetáculo eu a esperei, cumprimentei e lhe entreguei uma peça que havia escrito há poucas semanas. Disse a ela que uma das personagens foi escrita pensada nela.
Irene Ravache foi muito gentil, mais do eu poderia esperar. Já havia entregue algumas peças a atores famosos e nunca dão retorno, então, entregar a peça à Irene era somente algo que eu me sentia na obrigação de fazer para não lamentar no futuro.
Tudo isso não é estranho e fazia parte de minha rotina, mas quando digo que perdi uma oportunidade de ouro, me refiro à escolha da peça que entreguei a ela.
Entreguei "Eu, Tu... éramos!"... a pior peça que já escrevi na vida, algo que simplesmente foi feito para retratar alguns fatos que eu entendia como espúrias. Na verdade a estrutura era boa, a construção dos personagens era correta, mas eu me esqueci de fazer o principal, ou seja, não retratar a "vida como ela é". Desde os primeiros cursos de dramaturgia que fiz aprendi que a realidade como ela é não tem graça alguma, mas ali queria que fosse assim!!! Péssima idéia.
No dia seguinte à entrega da peça à Irene Ravache, estava em minha casa, sentado, conversando com minha filha de três anos, quando tocou meu telefone celular e a pessoa se identificou como Irene Ravache.
Fiquei alguns segundos sem saber o que fazer, ou dizer, mas ela foi objetiva e me fez uma pergunta que nunca mais esquecerei: "Por que você escreveu essa peça? Por que uso uma carpintaria teatral tão boa para essa história?"
Eu não soube responder... na verdade nem lembro qual foi a justificativa que dei... ela disse que leu a peça durante a noite, quando ficou no hotel da cidade (ela tinha uma nova sessão no dia seguinte). Ele simplesmente disse que eu dominava bem demais a estrutura de uma peça para utilizar naquela história. Ela deixou a peça no teatro e disse que eu poderia buscá-la outro dia.
Fiquei arrasado, havia tantas outras que eu poderia ter entregue para ela ler, tantas outras que ela poderia ser a personagem... mas simplesmente entreguei uma peça que retratava APENAS "a vida como ela é"!
Nunca mais revi esse texto, mas sei que não vale muito...
Perdi uma oportunidade... poderia ter tido Irene Ravache interpretando um texto meu, mas fiz a escolha equivocada...
É isso... peças, histórias, roteiros, contos, etc... têm de representar mais que a simples realidade...
É isso, escrevi uma peça para ser esquecida e que só tem valor biográfico!

Um comentário:

Drica disse...

Lembra-se da lei da atração??? Você fez o que tinha que ser feito (foi atrás da atriz), mas não acreditou nisso (que ela poderia gostar da peça), então, foi falível. (ela gostou, mas não como estava)...Quem sabe da próxima vez. É você que cria as linhas do seu destino.