terça-feira, dezembro 26, 2006

DILACERADOS

Acho que estou encontrando algumas coisas interessantes no meu baú de lembranças... Estava pesquisando em meus arquivos a cronologia das peças que escrevi e encontrei mais um conto que gosto muito, mas não me lembrava que havia escrito. Bom, o título do conto é "Dilacerados". Gostei tanto que o adaptei para um roteiro de curta-metragem... É um tanto triste, talvez meio pessimista... mas possui uma estética que me acompanhou por um bom tempo...
Assim, antes de eu voltar a falar de minhas peças, estejam convidados a conhecer mais um conto meu... "Dilacerados"...

Dilacerados

Era oito e meia da noite e ele havia acabado de sair do bar. Não poderia afirmar que não bebera, mas, com toda a certeza, seria inocentado num teste do bafômetro. A bem da verdade, tinha ingerido apenas duas ou três latas de cerveja... sem álcool. Sabia que iria dirigir e, por hábito, nunca bebia nessas ocasiões.
Ao cruzar uma grande avenida da cidade pôde verificar, através de seu retrovisor, que havia uma pessoa caída no meio do canteiro central da pista. Mais do que depressa, deu meia volta em seu carro e retornou para verificar o que estava acontecendo.
Quando parou o carro, sentiu um enorme calafrio. Por alguns instantes perdeu os sentidos e quase caiu. Apoiou-se numa árvore e logo que melhorou voltou a se dirigir à pessoa que estava caída. Caminhou mais treze passos e, num sutil movimento de se abaixar, reconheceu imediatamente a pessoa que estava morta ao seu lado.
Sim, estava morta e esse fato era irrevogável. Quando tocou o rosto dela e virou-o para si, seus olhos estavam sangrando como uma cachoeira. A pessoa que cometeu crime tão bárbaro fez questão de fazê-la sofrer. Havia dois cortes paralelos em sua face, começavam na testa percorrendo um trajeto linear até abaixo da bochecha.
Não gritou, não conseguiu! Abraçou-a com uma força descomunal e, naquele momento, seu único pensamento foi morrer junto com ela. Seu corpo frio lhe causou uma dor até então nunca sentida. A impotência diante da morte acabou com tudo.
Sem saber o que fazer, levantou-se e pegou-a no colo. Foi caminhando pela avenida cheia de carros e, naquele momento, nada mais lhe importava. Os sons das buzinas eram inaudíveis para ele. Tomou a pista central da avenida e continuou sua caminhada em direção a lugar nenhum.
Uma cena apavorante. Algumas pessoas passavam bem próximas a ele e xingavam sem perdão. Reduziam a marcha e, quando olhavam para seu rosto, não entendiam exatamente o que estava acontecendo. Um homem bem vestido, bonito, aparentemente de classe social abastada, carregando uma mulher em seus braços. O sangue dava um ar surreal à cena enquanto se esvaía levando os últimos sinais de vida da moça... um tapete ia se formando pelo caminho dos dois.
Em determinado momento alguns carros ficaram paralelos a eles e passaram a acompanhá-los lentamente em silêncio. Esse foi o início de um grande funeral. Ele não deu mais dois passos e todos passaram a segui-los.
Helicópteros surgiram no céu e passaram a usar refletores muito potentes para iluminar o caminho do homem. Todos os carros baixaram seus faróis e as famílias ficaram em silêncio dentro dos carros. Sequer olhavam para o homem carregando a mulher.
Já tinha andado uns quatro quilômetros e nada o abalava, fisicamente era o mesmo de quando começou a caminhada. Suava, isso sim; parecia que suas roupas haviam acabado de sair da água. Em determinado momento, alguns batedores tomaram à sua frente e por onde quer que ele passasse o trânsito era impedido. O que era aquilo? Como uma situação pôde assumir dimensões tão desproporcionais? (...) O que era aquilo?
Quando entrou no centro da cidade já fazia mais de duas horas que havia encontrado a moça. Ao pisar na avenida principal, nenhum carro mais estava trafegando por aquelas imediações e a população permanecia nas janelas dos edifícios acompanhando o funeral.
Àquela altura o sangue já não escorria com tanta fluidez, mas a dor dele era ainda maior, dor que o fazia continuar. Canais de televisão davam boletins ao vivo sobre o acontecido, somente desligavam suas luzes quando o homem passava por seus carros. Talvez uma atitude de respeito, talvez medo de ver de perto a face de um homem ferido no âmago de sua alma.
Alguns grupos tentaram puxar orações para acalentar a dor do homem, mas não conseguiram rezar nem a primeira estrofe. Não seria isso a amenizar-lhe a dor. Não havia o que dizer e só uma coisa a fazer, que era exatamente o que procurava executar naquele momento.
Não parou nem mudou um segundo sequer a posição como a carregava. O rosto dela estava protegido, encostado em seu peito. Sentia o pulsar de um coração dilacerado, um coração que faria qualquer coisa para restabelecer sua vida.
Quando chegou próximo a um edifício – sem ninguém entender, tampouco ter coragem para perguntar –, abaixou-se e abraçou a moça com uma ternura e dor até então nunca imaginável. Naquele momento chorou. Não um choro desesperado e alardeador, um choro mudo. De seu rosto mal se viam as lágrimas descerem... mas sentia a dor.
Os populares talvez tivessem pensado em ajudá-lo, mas permaneceram imóveis, apenas presenciando aquela situação inusitada. Num estádio de futebol, onde estava sendo decidido o título regional, as pessoas lentamente foram saindo do recinto sem dizer nada. Os jogadores, cada um em seu canto, foram sentando ou ajoelhando sobre o gramado... tudo ia acabando pavorosamente.
De repente ele olhou pro céu e, sem entender o que aquilo significava, viu os helicópteros desligarem seus refletores e aterrissarem no meio da avenida. Talvez nem fosse aquilo que ele pretendia, mas, sem dizer nada, os pilotos tomaram tal atitude.
Enquanto permaneceu olhando para o céu, uma chuva começou a cair. Uma garoa fina, mas densa. Aos populares nada incomodou, sequer abriram seus guarda-chuvas.
O homem levantou-se e, não sem antes beijar ternamente a face da moça e dizer-lhe qualquer coisa ao ouvido, passou a caminhar em direção ao edifício que estava à sua frente.
O portão estava aberto e as luzes apagadas, mas as escadas estavam iluminadas, degrau a degrau, por velas. Ele estava convicto do que tinha que fazer e foi subindo lentamente sem pensar em mais nada a não ser em seu destino.
Havia uma multidão em torno do edifício, talvez umas trinta ou quarenta mil pessoas. As pessoas mantinham o olhar voltado para o décimo oitavo andar, onde havia uma janela aberta e um pequeno foco de luz. Todos os apartamentos do prédio estavam apagados. Conforme o homem subia um andar, surgia na janela um morador que estendia um imenso tecido branco do lado de fora.
Era uma subida lenta, mas a cada tecido que surgia na janela, maior era a ansiedade dos populares. No fundo, todos sabiam o destino do homem e o porquê de aquilo tudo ter acontecido. Talvez soubessem até o desfecho dessa história, mas permaneciam calados... apenas, olhando.
Quando o morador do décimo sétimo andar surgiu à janela e estendeu seu tecido branco, algumas pessoas não conseguiram suportar a tensão do que estava por vir e se viraram. Outras, ainda mais fracas, tentaram ir embora daquele lugar... deram cinco ou seis passos, mas desistiram e permaneceram ali.
No momento exato em que o homem pisou no décimo oitavo andar e viu uma porta aberta, a população inteira que acompanhava o caso abaixou a cabeça e fechou os olhos. Pôde-se ouvir o soluçar e o choro contido de uma multidão, um coral de cúmplices na dor.
O homem foi entrando no apartamento e, logo na sala ampla e muito bem decorada, sentiu um calafrio, o mesmo que sentira há poucas horas. Sabia o que tinha acontecido e aquilo não mais o abalou. Deslocou-se alguns passos e viu uma velha senhora encostada à parede, cercada por fotografias, fantasmas e lembranças. Chegou até bem perto da senhora, que permanecia com a cabeça abaixada, colocou a moça no seu colo e beijou as duas.
A senhora tinha em suas mãos uma fotografia onde havia duas crianças e ela, bem mais nova. Um menino e uma menina, somente isso! Segurava com força tal que a única certeza que se poderia ter era de que ela não queria que aquele momento tivesse passado. Impotente perante o tempo, apegou-se a um momento e morreu agarrada a ele.
Aquelas duas mulheres mortas diante daquele homem demarcavam o fim de um ciclo, o fim de esperanças, de promessas, de expectativas... ele sentou-se ao lado delas.
O vizinho do décimo nono andar abriu sua janela e estendeu um tecido preto para fora de sua janela. A população levou um choque e foi se retirando lentamente, cada um com sua dor. Não mais de três minutos depois de os populares começarem a se retirar, o som de um tiro ecoou pelas ruas. Ninguém disse nada e continuou caminhando. Era tarde, e aquele tinha sido só mais um crime para constar nos autos criminais.

terça-feira, dezembro 19, 2006

A VIDA SEM PEPE LEGAL!

Tinha me esquecido de falar de um conto que escrevi há três ou quatro anos... Não é uma presença constante em minha vida esse tipo de estrutura literária para expressar minhas idéias, então, acho interessante que conheçam mais esse conto.
Tão singelo quanto o personagem Pepe Legal é a história do protagonista desse conto...

A VIDA SEM PEPE LEGAL

Àquela hora da madrugada ninguém saberia, ou melhor, ninguém conseguiria ouvir o grito da mulher do açougueiro em pleno ato. Sinceramente, eu não teria condições psicológicas para descrever os detalhes daquela atrocidade. Muitos sabiam que aquilo poderia acontecer uma hora ou outra, mas preferiram calar-se a contrariar o açougueiro.Afinal de contas, caso o homem viesse a ser contrariado, poderia envenenar a carne que seus fregueses, diariamente, compravam e a tragédia tomaria proporções ainda maiores. Na verdade, o silêncio de uma população inteira não pode ser justificado somente por esse argumento, mas diante de tudo que foi levantado nos autos. Essa é a conclusão a que se pode chegar! E o questionamento tornou-se ainda mais enfático quando se levou em consideração que diante de um homicídio doloso – que foi como o açougueiro foi indiciado –, a população inteira da cidade teria que ser indiciada como cúmplice.
Silêncio geral e ninguém mais conseguiu falar sobre esse assunto sem provocar outro incidente ainda maior. Anos atrás, um dos prefeitos, ao assumir seu cargo, disse que eliminaria com suas próprias mãos a pessoa que tentasse fazer qualquer questionamento a respeito da “Desgraça”, que era como os moradores da cidade referiam-se ao acontecido.
Por uma infelicidade ainda maior, ou talvez obra do destino – como alguns preferem chamar –, numa tarde de quinta-feira, ao sair da escola, um garoto chamado Gledson caminhava pela rua das Palmeiras quando tropeçou em um buraco na calçada e caiu no chão, batendo a cabeça num paralelepípedo. Morreu ali mesmo, em frente à casa do açougueiro.
Obviamente qualquer perito teria condições de constatar que o que tinha havido ali nada mais fora que realmente uma fatalidade, mas a história tomou proporções ainda maiores quando o açougueiro saiu à porta para ver o que havia sido aquele grito emitido pelo garoto de apenas 10 anos.
Quando o açougueiro viu que se tratava de uma criança, correu para ajudá-la, mas esse ato nunca poderia ter sido praticado por aquele homem. Quando ele colocou sua mão na cabeça do garoto e viu que o sangue dele escorria como uma nascente d’água, algo fez com que sua expressão se transformasse. E aquele sangue sujando suas mãos!!!... Naquele exato momento as lembranças de sua mulher invadiram seus pensamentos e, com a mudança em sua feição, levantou-se, segurou o garoto pelos pés e o puxou até dentro de sua casa.
Alguns acharam que a maior violência da História havia sido cometida contra a mulher do açougueiro, mas tenho a relatar que os que entraram na casa daquele homem, na noite do acidente com o garoto, por uma razão que é difícil precisar, perderam completamente a noção de civilidade ao presenciarem o que o facínora (desculpem-me por utilizar esse termo!) havia feito com o menino.
O que tenho a relatar é que em nenhum manual de Medicina Legal aquilo tinha sido descrito... O ineditismo da ocorrência trouxe especialistas de todos os cantos do país à pobre cidade.
Ninguém conseguia chorar. Velório não pôde haver e, depois que houve a divulgação do modo como ocorrera sua morte, tampouco a Igreja permitiu que enterrassem com o menino no cemitério cristão. Na ocasião, o prefeito não conseguiu sequer colocar em prática o que havia prometido à população... por uma simples razão: o garoto ser seu filho! Ao vê-lo, e em seguida o açougueiro, pegou uma faca de mesa e passou a perfurar seus próprios olhos e sua face. Na verdade não conseguia conceber como aquilo havia acontecido exatamente com sua cria, e mais, uma criança de apenas 10 anos de idade...
Tentaram segurá-lo para que não se matasse, mas após ferir sua face, correu sem controle pelas ruas da cidade e acabou caindo sobre uma estaca que apoiava uma das árvores do jardim da praça. Morreu...
O açougueiro pediu desculpas pelo ocorrido e voltou para sua casa, pois ninguém tinha coragem de chegar perto dele. Preso, nunca seria! Simplesmente porque não havia onde confiná-lo e muito menos quem tivesse coragem de colocar suas mãos nele.
Ao entrar em sua casa sentou-se em frente à televisão e a ligou para assistir ao desenho do “Pepe Legal”, seu personagem predileto da HB. Por razões que nem a razão consegue explicar, ria... era um riso que limpava sua alma, que trazia de volta toda sua ingenuidade... mas não eliminava sua culpa! Pelo menos diante daquelas pessoas.
Os anos amenizaram o peso da história e a população, num ato de repúdio e auto-proteção, desviou o curso de um rio para que fosse estabelecida uma fronteira entre a sanidade e a loucura. A casa do açougueiro ficou isolada do restante da cidade, assim, nunca mais haveria uma ligação entre os dois mundos! No entanto, quanto mais tentavam esconder a história de seus filhos, mais o açougueiro passara a ser cultuado como um herói e todos os meninos, ao completarem 10 anos, como prova de coragem e virilidade, eram desafiados a atravessar o rio e entrar na casa do açougueiro trazendo um pedaço de carne lá de dentro.
Num ato de pura insanidade infantil, grupos se formavam em frente à casa do açougueiro durante a noite. Em seguida, tiravam "par ou ímpar" para saber quem seria o primeiro a cumprir o "cerimonial do fim da infância". Não havia medo em suas faces, era algo que somente nessa idade pode ser encontrado e perdoado: ansiedade, curiosidade e inconseqüência.
Entravam empunhando uma faca e saiam com as mãos sujas de sangue – somente eram ouvidos os gritos dos gatos sendo degolados – e um pedaço de carne em uma delas. Seus rostos já não continham aquele sorriso que outrora tiveram, tampouco sabiam o que fariam a seguir... Ao pisarem fora da casa, olhavam para seus companheiros, passavam a faca para o próximo e continuavam a caminhar sem rumo pela noite.
Dizem que durante essa noite a alma do açougueiro caminha com os meninos e tenta confortá-los do peso da provação. É uma noite cheia de perturbações e questionamentos que persegui-los-ão para o resto da vida. O sangue que fica nas mãos desses meninos as mantém geladas durante o frio inverno das montanhas, mas nem assim consegue conter a ebulição de sensações que toma conta de sua mente e alma.
Dez anos passa a ser uma pena para os meninos. Seus pais sabem que estão predestinados a passarem por isso, mas não conseguem abandonar a cidade nem os proíbem de participar da cerimônia. Ninguém fala nada e a vida continua.
A constatação mais triste que se pode chegar é de que muitos desses meninos deixam a cidade quando estão próximos de completar 18 anos e seu paradeiro nunca mais é sabido por lá. Os pais choram escondidos e as mães procuram orar diariamente para que nenhuma maldição os acompanhe.
"Coisas" acontecem todos os dias e ninguém sabe exatamente como explicar, às vezes sabem, mas preferem se calar. Esses meninos, fadados a peregrinarem pelo mundo à procura de suas almas roubadas pelo açougueiro, passaram a trilhar caminhos totalmente fora do habitual, no entanto, perfeitamente compatíveis com sua forma de agir. Sempre, após completarem dezoito anos, passam a cometer crimes em série. Crimes tão atrozes, ou mais, que o cometido pelo açougueiro contra sua mulher e o filho do delegado. Tornam-se "serial killers" e passam a viver pelo mundo à fora.
Uma cidade exportadora de "serial killers" que vê suas crianças partirem e não consegue fazer nada para interromper essa sina. Dor, amargura e nada a fazer...

- Quando os olhos não brilham e o sangue que está em sua mão mantém seu corpo gelado, é hora de matar novamente. Em cada morte é possível encontrar um pouco de alegria para quando o desenho do "Pepe Legal" acabar. – foi o que respondeu um desses "meninos" ao ser capturado e toda história começar a vir à tona.

domingo, dezembro 10, 2006

CONEXÃO DOLLS AND DOLLS

Em 1999 ainda escrevi mais duas peças: "Boys and Girls" e "Violência", que seriam encenadas em 2002, e sobre as quais falarei mais pra frente, no entanto, a partir de 2000, além de dar maior ênfase à minha carreira acadêmica, passei a desenvolver projetos alternativos.
Um dos projetos mais interessantes que desenvolvi foi "Conexão Dolls and Dolls". Novamente, numa parceria com Rodrigo Malagoli e o designer Moacir, seu sócio na época.
Em uma de nossas conversar, aventamos a possibilidade de fazer uma micro novela para a internet cujos capítulo durassem apenas 3 minutos cada. O Moacir ficou bastante empolgado com a idéia e começou a desenvolver a parte técnica do projeto.
Eu, como sempre, fui envolvido pelo projeto e sugeri que fosse uma história de ficção, porém, uma comédia rasgada com a utilização de muito efeito especial e animação de bonecos.
O projeto foi sendo desenvolvido até chegarmos a um formato de 15 capítulos, que seriam divulgados no próprio site da agência do Rodrigo e depois comercializado com outros...
Convidei uma ótima atriz, Ananda Costa, então com sete anos, para fazer a personagem principal da novela. Além de seu talento, precisava estar sem os dentes da frente... Bom, tudo foi muito bem até esbarrarmos na última etapa da produção: um softer exclusivo para a elaboração dos efeitos sugeridos pelo roteiro... Não deu... mas esse projeto fez com que minha vontade de criar não sucumbisse diante do universo da realidade que estava me dedicando.
"Conexão Dolls and Dolls" partida da premissa que uma pessoa havia roubado todas as bonecas Barbie do mundo e, como o chefe de uma Agência Internacional de Detetives precisava de uma boneca para dar para sua filha de presente de Natal, ele colocara todo seu staff atrás da pessoa que roubara as bonecas... Uma grande piada, salpicada de efeitos com raios nos olhos, sabres de luz e muitos campos de força...
Um sonho que ainda continua no papel... em 15 capítulos de 3 minutos!

1- ESCRITÓRIO – INT.

CHEFE
Quem descobriu? Não é possível. Mandem todos para lá imediatamente! (PAUSA) Eu disse todos! (DESLIGA O TELEFONE E O SEGURA NA MÃO) Agora é correr contra o tempo! (VAI BAIXANDO A MÃO PARA COLOCAR O FONE NO GANCHO)


2 – VIAGEM PELOS FIOS DO TELEFONE – ANIMAÇÃO

Imagem do telefone e em seguida uma espécie de raio saindo rapidamente pelo fio... Imagem de um edifício e uma torre acima dele... O raio divide-se numa torre de energia e é espalhado para todo o mundo... Visão do Globo terrestre e vários fios de energia chegando pelos países...


3 – RESTAURANTE NA FRANÇA – EXT – DIA

AGENTE 1
(SEGURANDO O CELULAR) Brasil de novo!


4 – DESERTO DA ARÁBIA – EXT – DIA

AGENTE 2
(SEGURANDO O CELULAR) Não é possível!


5 – CASA JAPONESA – INT – NOITE

AGENTE 3
(SEGURANDO O CELULAR) Dessa vez não!


6 – WALL STREET (NOVA YORK) – EXT – DIA

AGENTE 4
(SEGURANDO O CELULAR) Não vai acontecer de novo!


7 – ANIMAÇÃO DOS AGENTES EM DIREÇÃO AO BRASIL

Imagem do Globo Terrestre e em seguida aviões e navios saindo de vários países em direção ao Brasil...


8 – VIA ANHANGÜERA – EXT – DIA

Um automóvel vai deslocando-se pela rodovia; visão interna onde pode-se ver uma placa de sinalização mostrando a entrada de Jundiaí.

MALFEITOR
(RINDO) Rá! Rá! Rá! (SEM VER O CORPO OU ROSTO, SÓ A ESTRADA)

FINAL DO PRIMEIRO CAPÍTULO

domingo, dezembro 03, 2006

BE ALIVE

É interessante como as coisas nem sempre acontecem como esperamos, mas repercutem de tal forma que o resultado acaba sendo melhor do que o esperado. Parece chavão dizer isso, mas vocês vão entender o porquê.
Enquanto "TEENS" se apresentava e era um sucesso, resolvi, novamente, experimentar novas linguagens dramaturgicas para ver se conseguia desenvolvê-las. Eu havia lido muita coisa sobre o filme "A Bruxa de Blair" e como nasceu de um site. Como nada nessa vida é puramente ineditismo, resolvi tentar fazer algo parecido. Mas o grande problema era que eu não tinha know-how para desenvolver o projeto. Então, pela primeira vez, propuz ao meu amigo, e designer gráfico, Rodrigo Malagoli, que me auxiliasse na criação.
Bom, tenho a dizer que foi muito melhor do que eu esperava. Nossa proposta era criar a história de um jornalista que, em contato com um crime numa cidade do Canadá, passaria a viajar o mundo à procura de respostas. Mas a abordagem não seria como numa história de ficção (viu como não era inédito!), eu usaria os pressupostos de "A Bruxa de Blair".
O projeto foi montado e as narrativas do jornalista seria em forma de um diário... abrindo a possibilidade para que as pessoas o auxiliassem... o site seria bilíngüe e tudo mais.
Escrevi grande parte do diário do jornalista para que quando o site começasse a ser divulgado, desse a impressão de que seria um recurso dele para resolver o caso do assassinato... O Rodrigo desenvolveu a programação visual do site de maneira primorosa... mas infelizmente não conseguimos patrocínio para colocá-lo no ar!!!
Fiquei com os diários do personagem e sabia que teria de fazer alguma coisa com ele... mas isso só aconteceu algum tempo depois... Comentarei sobre isso depois... no entanto, a parceria com o Rodrigo voltaria a acontecer em outras circunstâncias... Também, não dá para abandonar alguém com a criatividade e técnica que ele tem... uma pessoa que apenas com poucas palavras consegue transformar em imagens o que só sei escrever, às vezes nem isso...

sábado, dezembro 02, 2006

TEENS - PRIMEIRA MONTAGEM

Depois de encerradas as apresentações de "Delírios Blues", apesar de todos os problemas que tivemos na estréia, uma coisa era bem clara pra mim: o público adolescente havia gostado do texto e da estrutura da montagem.
Por essa perspectiva, fui convidado por um grupo
teatral de Jundiaí para desenvolver um texto que pudesse abordar quetões que fossem exclusivamente do universo adolescente. E pediram para que o texto desse ênfase ao universo feminino, haja vista o grupo ser formado praticamente por mulheres.
Essa foi a parte mais difícil ao desenvolver o texto. Talvez, se elas quisessem que eu abordasse a adolescência pelo ponto de vista dos maculino fosse mais fácil, no entanto, aceitei a proposta como um desafio. Pesquisei bastante com educadores, médicos, psicólogos e adolescentes, virei amigo de muitos!
Também contei com o apoio das atrizes que iriam fazer o espetáculo. Ah, esqueci de dizer que lica "capricho", "querida", "toda teen" e mais uma gama enorme desse tipo de literatura.
O espetáculo estreou em Jundiaí e fez uma temporada de extremo sucesso, praticamente todo o público estudantil da cidade compareceu as sessões... Não sei se exagero, mas o que posso dizer é que o público gostou muito da linguagem do espetáculo porque aboradava temas que lhes eram interessantes, mas sem a preocupação de dar lições de moral!
Lembro de ter assistido algumas sessões observando a reação do público... poucas vezes percebi o público adolescente tão compenetrado numa peça teatral. E o que chamou atenção foi que nos primeiros cinco minutos ainda era possível perceber algumas pessoas "tirando sarro dos outros" ou mesmo "fazendo piadas com as cenas", mas depois eles eram inseridos de tal forma na trama que passavam a ser cúmplices!
Gostei mesmo da montagem, mas tenho que citar duas pessoas que roubaram as cenas: uma delas é Fernanda Regia, que fazia uma das meninas que fazia parte do trio de personagens principais (ela era Janaína) e a outra foi a atriz Cristina Guimarães. A ela coube fazer todas as demais personagens feminidas da trama (mães, professoras, amigas de academia... tudo), ela conseguiu desenvolver tão bem suas personagens que atribuo a ela grande parte do sucesso do espetáculo!

Uma das cenas que expressa a tranformação das personagens é essa que apresento agora, quando escrevem em seus diários:

CENA 7 – O DIÁRIO

CONTINUA O BLACKOUT, SOM DE BATIDAS NA PORTA...

MÃE - (off) Você vai ficar trancada aí o dia inteiro?!

AS TRÊS MENINAS RESPONDERÃO AO MESMO TEMPO, AINDA ESTANDO NO ESCURO...

JANAÍNA - Já vai mãe!
FLÁVIA - Já vai mãe!
LAURINHA - Já vai mãe!

ACENDE A LUZ SOBRE FLÁVIA...

FLÁVIA - (sentada numa poltrona com o diário na mão) (escrevendo) “Parece que o colegial é a mesma coisa, mas com pessoas mais velhas. Na verdade poucas pessoas novas e os mesmos chatos de sempre. Já estamos quase nas férias de julho e até agora continuo virgem. Não que isso seja uma preocupação pra mim, mas tenho a impressão que serei a última virgem dessa turma. Acho até que a Laurinha vai conseguir transar antes de mim...”

APAGA A LUZ DE FLÁVIA E ACENDE EM LAURINHA, QUE ESTÁ SENTADA EM SUA ESCRIVANINHA ESCREVENDO NO DIÁRIO...

LAURINHA - “Não sei o que está acontecendo comigo, não sinto vontade de ficar com nenhum desses meninos, não sei o que é isso e às vezes me preocupo. Ontem fiquei a tarde inteira conversando com o Ricardinho na biblioteca da escola. Como ele é inteligente, dá a impressão que sabe tudo sobre o mundo. Numa aula da semana passada o professor começou a perguntar as coisas pra ele, só pra derrubá-lo e ele respondia tudo, o professor que acabou dançando...”

APAGA A LUZ DE LAURINHA E ACENDE EM JANAÍNA, QUE ESTÁ DEITADA EM SUA CAMA ESCREVENDO NO DIÁRIO...

JANAÍNA - “Hoje tem mais um daqueles chatíssimos jantares aqui em casa. (irônica) A maravilhosa mamãe vai apresentar seu novo namorado. O difícil é decorar os nomes deles! Nunca vi uma pessoa trocar tanto de namorado como ela, (ácida) seu hobby. (irritada) Pô, e ela é uma senhora... bem que meu pai disse. Mas tudo bem, não me importaria com os namorados da minha mãe se deixassem de se importar comigo. Tô cansada de receber bonequinhas deles (dando uma irônica importância) no jantar de apresentação à filha. Mas o penúltimo, um velho de mais de cinqüenta anos, foi o que eu fiquei com mais raiva; não pela idade dele, já tô acostumada com a velharada, mas porque me trouxe um “bebê gatinhando”. Tenha santa paciência!”

APAGA A LUZ DE JANAÍNA E ACENDE EM LAURINHA...

LAURINHA - “Tá sendo legal ficar esses dias com minha mãe, fazia tempo que a gente não se via. (sutil ironia) Trabalho! O legal é que parece que por mais tempo que a gente possa passar distantes, sempre que nos encontrarmos seremos grandes amigas. Não que eu não goste da mulher do meu pai, (sorri) ela também é muito legal, me dá a maior força. É como se eu tivesse duas mães diferentes mas que isso fosse a coisa mais natural do mundo. Meu pai que teve sorte em ter essas duas mulheres na vida!”

ACENDE A LUZ DE FLÁVIA E A DE LAURINHA PERMANECE ACESA...

FLÁVIA - “Ficar com o Renan tá sendo legal, não posso dizer que ele seja o cara mais lindo do mundo, mas por alguma razão que eu não sei explicar, já faz mais de três semanas que estamos juntos. Semana passada ele me levou pra conhecer a família dele; são muito ricos mas legais demais! Minha mãe ainda não sabe que a gente tá namorando, mas ela sabe quem são os alunos que colam na matéria dela!”

ACENDE A LUZ DE LAURINHA E A DAS DUAS PERMANECEM ACESAS...

JANAÍNA - “Não acho que seja tão ruim fumar como dizem por aí. Minha mãe fuma há tanto tempo e continua a mesma coisa. Mas por enquanto é melhor que ela não saiba de nada, não vai entender. Na festa da Ana Claudia aconteceu uma coisa pela primeira vez, um carinha me viu fumando e me ofereceu um baseado, (meio assustada com o que está acontecendo consigo) experimentei e só.”
LAURINHA - “Li ontem um romance que narra uma história de amor impossível...”
JANAÍNA - “Acho que vou levar pra Laurinha e pra Flá um cigarro pra gen...”
FLÁVIA - “Acho que meu corpo tá ficando meio estranho, tem um seio maior que o ou...”

SOM DE BATIDAS NA PORTA...

MÃE - (off) Será que você pode apagar a luz pra dormir!?

AS TRÊS RESPONDEM AO MESMO TEMPO...

LAURINHA - Tá bom, mãe. (apaga a luz)
FLÁVIA - Tá bom, mãe. (apaga a luz)
JANAÍNA - Tá bom, mãe. (apaga a luz)
AS TRÊS FECHAM OS DIÁRIOS AO MESMO TEMPO E AS LUZES SE APAGAM...


Alguns anos depois eu me reencontraria com essas persoagens em outra montagem...

QUINZE MINUTOS

Às vezes a vida da gente está tão atribulada que acaba refletindo no que fazemos... em 1998, enquanto trabalhava no espetáculo "Delírios Blues" resolvi que teria de escrever algo que fugisse completamente a tudo que já havia feito até então.
Pensando nas possibilidades que uma pessoa possa ter na vida, cheguei à "Quinze Minutos". A história é simples: um homem muito cansado, carregando uma sela nas costas, encontra outro que lhe oferece quinze minutos para expressar seus sentimentos. Se ele conseguir comover os ouvintes, conseguirá ser absolvido das angústias do passado, caso contrário...
O insólito dessa história e o clima de um julgamento que toma conta da cena. O público, muito mais que mero ouvinte da trama, acaba sendo o responsável pelo julgamento dos quinze minutos.
Nunca gostei muito de peças com interatividade, mas enquanto escrevia essa história me pareceu que os personagens não conseguiriam resolver os problemas propostos sem que houvesse uma "ampliação" das perspectivas. Parece estranho o que escrevi, mas queria mesmo é que o público assistisse essa peça com um olhar mais envolvido que simplesmente daquele que vê um fato e não pode resolver o problema.
Por duas oportunidades foi feita a leitura dessa peça... gostei do resultado, mas não foi adiante. Talvez um dia alguém venha a montá-lo, mas acredito que sempre será um desafio novo, até porque, o público será um personagem importante e, novo a cada dia!
Acho que o que gosto, também, nesse texto é o humor ácido dos personagens - muitas vezes até dolorido -, mesclado com uma tentativa filosófica de explicar a angústica!!! É claro que não explico muita coisa, mas acaba tendo um sentido dúbio.
Uma das partes mais interessantes do texto é o monólogo que o personagem Lombard faz antes de Belchior ter os seus quinze minutos:


LOMBARD - (muito emocionado) Às margens dos rios Tigre e Eufrates, alguém surgiu com uma grande novidade e os habitantes daquele vilarejo acharam que nada mais poderia ser novo. Esse alguém, que a História fez questão de esquecer o nome, não disse muita coisa, mas o tempo também esqueceu... Muitos séculos depois, às margens do rio Nilo, esse mesmo homem reapareceu e tentou explicar o porquê dele estar ali, o porquê dele dizer aquelas poucas palavras. Ninguém quis ouvir e o homem tentou só mais uma vez. Às margens do rio Tâmisa, lá estava ele tentando explicar... (se corrige) não, explicar não; levar suas palavras, às poucas que poderiam modificar a existência da raça humana na Terra... algumas pessoas se aproximaram dele, parecia que o ouviam com a máxima atenção. Ele ficou horas falando... na verdade não eram tão poucas assim as palavras... ele tinha encontrado as pessoas que mudariam o mundo, elas já sabiam o segredo da existência e ele poderia dormir tranqüilo sem precisar vagar pelos tempos. Ao anoitecer, uma senhora chegou e foi conduzindo os ouvintes em silêncio, eles estavam tão quietos que o homem tinha certeza de que os corações deles estavam mudados, tinham sido tocados. O homem chegou para a senhora que estava conduzindo os ouvintes e disse: “A senhora está conduzindo pessoas novas, eles conhecem o segredo da existência e vão passar a divulgá-lo pelos tempos. Me ouviram a tarde inteira, mas a sabedoria estava nos últimos quinze minutos” A mulher sorriu caridosamente, olhou para o homem e disse: “Eles são surdos meu senhor, creio que não entenderam nada!” e se foi. O homem emudeceu, olhou ao redor e disse: “Aqueles que conseguirem se ver durante quinze minutos, tocarem e serem tocados... descobrirão o que eu disse a essa platéia”.
Disso não se deve tirar nenhuma lição mas, para entrar nos quinze minutos, são criadas portas que, muito mais que abrirem e fecharem, têm que ligar... Eu vou abri-las e, se essas pessoas que estiverem nelas não forem tocadas ao final dos quinze minutos, serei obrigado a fechá-las para o resto da vida. E, dentro dos quinze minutos em que a pessoa abriu seu coração, tudo que foi dito vai se tornar um fardo quase impossível de ser carregado. (pausa)
Eu não queria assim... os quinze minutos são assim... (respira fundo) Que se abram as portas.

Que ninguém, precise de quinze minutos em sua vida, mas se precisar...

domingo, novembro 12, 2006

VOCÊ TEM VISTO A CHUVA?

Em 1998, enquanto estava em cena com a peça "Delírios Blues", resolvi experimentar outra linguagem dentro do rol da ficção. Já tinha escrito alguns contos antes de "Você tem visto a chuva?", mas para participar do concurso criado pela Coordenadoria de Cultura da cidade de Jundiaí resolvi que teria de fazer algo especial.
Eu sempre gostei da temática da "amizade", tinha escrito várias peças com essa abordagem, mas para o conto resolvi que faria algo que privilegiasse a ingenuidade... e a descoberta.
Escrevi uma história simples de um pré-adolescente apaixonado... nada mais simples... mas conseguiu alcançar certeiramente nos jurados do concurso devido a sua carga emotiva e humor.
Gostei muito do resultado e tive a felicidade de ter o conto incluído no livro editado com o melhores contos daquele concurso...
Convido vocês a reviverem alguns bons momentos da pré-adolescência junto com esse personagem que criei... e perceber como um filme poder ser o diferencial em alguns momentos.

VOCÊ TEM VISTO A CHUVA?

Por quase um segundo não havia entendido o que estava por acontecer comigo naquela noite; tudo sucedeu de uma forma tão nova que quando dei conta lá estava eu olhando para uma tela de cinema sem entender exatamente como havia chegado ali. Ter ou não legendas era um mero detalhe que não me dizia nada, olhava para a tela e via pessoas estranhas movimentando suas bocas sem que nenhum som saísse dali.
Nem sabia qual era o filme, mas quem estava ao meu lado tinha certeza. Por uma brincadeira convidei a menina mais linda da escola pra ir ao cinema comigo... e o mais estranho: ela aceitou. Fiquei contando os minutos para que a hora logo chegasse; quando chegou, quase não tive forças para passar em sua casa. Minhas pernas tremiam tanto que às vezes tinha impressão que iria cair.
Para apertar a campainha de sua casa fiquei quase dez minutos ensaiando o “boa noite”, caso sua mãe atendesse. Nesse ponto tive sorte e ela mesma atendeu, menos um problema. De sua casa até o cinema preferimos ir a pé, não era muito longe, uns dez ou doze quarteirões. A sessão seria às sete e meia da noite, daria para chegar com tempo de sobra.
No caminho tinha muita dificuldade em puxar assunto; coisa estranha pra mim que sempre fui extrovertido; por alguma razão que até então não havia detectado, cada vez que olhava pra ela minhas mãos suavam e um calor subia pelo meu corpo. Ela também não fez muita questão de facilitar nossa vida; até a metade do caminho não pronunciou uma única palavra. O único pensamento que me passava pela cabeça, fora a sacanagem que era de praxe, era “como aquelas horas passariam se a gente não falasse sobre nada!”. E talvez um pensamento pior também vinha à minha cabeça: “o que ela diria as suas amigas no dia seguinte!”; quanto a mim, não tinha preocupações, acontecendo ou não alguma coisa, as mentiras com detalhes e tudo já estavam preparadas.
Quando passamos próximo à casa de sua tia, fui olhar algo que ela havia me mostrado. Tinha que aproveitar para puxar conversa, mas por infelicidade do destino tropecei num buraco na calçada e caí, torci o pé e pensei que fosse morrer de dor. Quando ela se abaixou para me ajudar e perguntou como me sentia e se queria que chamasse sua tia para me levar ao médico, no mesmo instante levantei e disse que não tinha sido nada. Seria difícil enganá-la até o cinema, mas eu estava disposto a isso. Lá eu poderia sentar-me e a dor melhoraria. Foram mais seis quarteirões mancando como um ferido de guerra, mas com um sorriso de quem acaba de receber uma condecoração por honra e bravura.
Volta e meia ela perguntava de meu pé e era nesses momentos que a coisa ficava mais difícil; eu tentava de toda forma parar de mancar, a dor aumentava e eu ficava parecendo uma mula manca. Por incrível que pareça, em alguns momentos poderia jurar que não estava mancando e, se, por ventura estivesse, seria algo de uma sutileza que pouca gente poderia perceber.
Ela estava preocupada comigo e isso de alguma forma fez com que começasse a puxar conversa. Primeiro falamos de sua prima, depois de seu primo, depois de suas tias, seus avós, seus pais, e quando pensei que entraria nos meandros de sua árvore genealógica, perguntou de mim. Pergunta difícil vinda de uma menina e dirigida a uma pessoa que tinha somente doze anos de história.
Não tinha nada para ser dito, pelo menos nada que pudesse impressioná-la. Primeiro falei de uma partida de futebol na qual havia marcado quatro gols e o quanto isso fora importante porque na posição que jogava, lateral esquerdo, isso dificilmente acontecia. Ela ouviu e não demonstrou muito interesse nesse tipo de assunto, sorriu, isso ela fez durante a explanação. E mais, além de sorrir disse “Noooossa!”.

Não tinha visto qual filme estava em cartaz no cinema quando saí de casa, tudo tinha acontecido de uma maneira tão rápida que esqueci desse detalhe. Quando chegamos, de longe notei que alguma coisa estava errada, havia uma grande fila na porta. Não era uma fila comum, somente casais, garotos como nós, só que um pouco mais velhos.
“PARADISE”, estranho como um nome fica gravado em nossa memória; esse nunca mais saiu depois que o li pela primeira vez. Era o nome do filme e a censura estava indicando quatorze anos; a situação ficou complicada pois além de mancar, passei a tremer novamente. Acho que pagaria para ver alguém nessa mesma situação só pra poder rir como os outros riam de mim. Quando aqueles garotos mais velhos me viram, não fizeram questão de esconder; riram escandalosamente. Eu, como sempre, fingia não ser comigo. Minha amiga ficou preocupada, pois não tínhamos idade para assistir ao filme e poderíamos ser barrados. Eu a tranqüilizei dizendo que a bilheteira era minha amiga. Juntos, entramos na fila e os casais não paravam de chegar.
Quando chegou minha vez de comprar os ingressos, pedi dois e a mulher da bilheteria olhou bem na minha cara e pediu nossos documentos. Eu dei um sorriso, olhei seu nome no crachá e disse:
- Você não se lembra de mim, Dirce?! – ao mesmo tempo peguei minha carteira de estudante e uma nota de cem e a entreguei. Ela deu um sorriso e me entregou as entradas. Lá tinha ficado minha mesada e aquele mês seria a maior dureza, mas esse primeiro obstáculo já tinha ficado para trás.
Quando fomos passar pela catraca, pela primeira vez tivemos um contato mais íntimo. Coloquei minha mão em seu ombro e por aproximadamente dois segundos e alguns milésimos pude sentir o pulsar de seu corpo.
Seria uma noite dura, meu dinheiro tinha ficado todo na bilheteria e não sobrou nem pra pipoca ou refrigerante. A sorte foi que logo fomos entrando na sala de projeção e não permitiam que nela se entrasse com comestíveis.
A bem da verdade, disse que minha mãe havia me aconselhado a não comer porcarias fora de casa porque muitas vezes uma má alimentação pode causar danos irreparáveis ao sistema digestivo. Papo extremamente indigesto para quem tem doze anos, mas na hora foi o único que surgiu.
Ela era linda: loira, olhos azuis e uma pele que dava vontade de não parar de beijar, parecia pele de boneca. Não que eu tivesse experiência nesse assunto, apenas sabia o que diziam, mas no fundo ela era a pessoa mais linda que eu tinha visto.
Passaram os trailers e quando o filme ia começar olhei para trás e já vi que aquela sessão seria muito diferente das outras às quais vinha com meus amigos. Os casais que antes eram dois, agora, de tão abraçados, pareciam uma única pessoa. E os barulhos dos beijos!!! Realmente não seria uma sessão normal.
Ligaram o ar condicionado, mas em mim tudo acontecia ao inverso, o maldito calor que volta e meia subia pelo meu corpo parecia ter se instalado para sempre. Num momento me aproximei um pouco mais e senti seu perfume. Era diferente, perfume de mulher. Não era doce e enjoativo, era extremamente refrescante, dava a impressão de que ela havia acabado de sair do banho. Não que eu tivesse tido a oportunidade de ver uma mulher sair do banho, mas isso ficava por conta do meu imaginário.
Até o meio do filme nem fiz questão de olhar para a tela; como disse, parecia que os atores simplesmente moviam os lábios e nenhum som saía da boca, que as legendas estavam escritas em outra língua e tudo mais. Mas houve uma cena em que mudou tudo: de uma hora pra outra passei a entender a legenda e podia jurar que até o inglês que falavam. De repente, os dois jovens do filme se encontraram num paraíso perdido e passam a se descobrir. Junto com uma menina, pela primeira vez estava vendo uma mulher nua na tela. E não ficou só nisso, eles se beijaram e mais pra frente até transaram.
Tenho certeza que muitos naquela platéia nem chegaram a ver o filme, adiantaram os acontecimentos... mas eu via e sentia algo que me causava uma vergonha imensa e ao mesmo tempo uma excitação incontrolável. Houve um momento em que chegamos a nos tocar, quando ao mesmo tempo tentamos colocar nossos braços no braço da poltrona. Fiquei tão envergonhado com a reação que tive, que imediatamente retirei a mão da poltrona e coloquei sobre meu colo para esconder o que quer que pudesse sobressair em minha roupa.
Terminou o filme e senti que tinha envelhecido pelo menos uns dois anos, aquilo havia servido como aula. Tinha sido muito mais interessante que os filmes pornôs os quais tinha assistido com meus amigos. Na verdade não vi nada de tão forte assim, mas estava com ela e isso foi diferente. Eles não transavam somente por transar, era muito diferente de tudo o que haviam me dito.
Não falamos nada enquanto saíamos do cinema. No hall, ela virou-se pra mim e quase fez com que eu tivesse um ataque cardíaco. Mas não era nada, simplesmente perguntou se não seria melhor irmos embora de ônibus, pois o tempo estava instável e poderia chover. Como dizer que não tinha dinheiro?!!! Disse que não, que a noite estava linda e não havia risco, até porque poderíamos ir embora conversando que logo chegaríamos.
Mesmo em dúvida ela resolveu aceitar e lá fomos nós. Logo no início da caminhada os relâmpagos começaram a nos acompanhar. Ela olhava pra mim e eu sorria. Que conversa nada; realmente não estávamos preparados para falar qualquer coisa a respeito daquele filme. Entramos por engano e aquele universo para onde havíamos sido catapultados era distante demais de nossas realidades. Como falar de sexo, amor, paixão, se ainda pensava em o que era uma camisinha, se o maior prazer que conhecia era a masturbação e a ela me dedicava com afinco.
Quando estávamos passando por uma escola infantil onde havíamos estudado quando crianças, a chuva caiu de uma maneira tão violenta que a única coisa que nos restou foi pular o portão e nos esconder dentro da escola. Eu a ajudei, mas mesmo assim nos molhamos bastante. As salas de aula eram muito no fundo do terreno, por isso entramos numa casinha de madeira que ficava bem no centro do parquinho.
Pela janela da casinha entrava a luz dos postes da rua. A vergonha que sentia naquele momento era algo indescritível; só pensava no porquê daquilo ter acontecido comigo! Por que a chuva fez questão de cair naquele exato momento?! Por que estragar algo que mal havia começado?!
Um silêncio imperou por alguns minutos, quando não dava mais pra sustentar, disse:
- Desculpa.
Ela nem olhou pra mim e permaneceu hipnotizada pela chuva e pela luz da rua. Senti-me acabado, humilhado pela situação. Essa também era uma sensação nova pra mim. Até a pouco, uma menina não tinha tanta importância assim na minha vida... Quando não tinha mais o que fazer, ela, sem olhar pra mim, disse:
- Você gostou do filme?
Aquela pergunta não; eu não estava preparado pra respondê-la. Só podia ser maldade. Eu sabia tudo sobre futebol, vídeo game, basquete, até sobre geografia, mas isso não... fiquei quieto e ela continuou:
- Eu achei muito legal você ter me levado pra assistir aquele filme. Eu tinha visto minha irmã combinando com o namorado dela para assistirem juntos. Era estranho porque ela sempre falou pra minha mãe os filmes que queria assistir, mas esse ela combinava tudo escondido. Você já fez aquilo?
Tive que fechar a boca para o coração não sair por ela, tal a violência que foi acometido a bater. As palavras não saíam, mas com muita dificuldade, gaguejando, disse que não.
- Eu já tinha visto minha mãe fazendo, mas não era bonito que nem no cinema.
Ela estava falando de sexo! Eu e uma menina de doze anos falando da coisa mais almejada por um menino. Elas também falam disso!!!
- A chuva tá forte, né?! – foi a única coisa que pude dizer.
- Você gosta de mim? – perguntou ela, virando-se bruscamente e olhando nos meus olhos escondidos pela penumbra.
Meninos não estão preparados para responder a esse tipo de pergunta e eu não fugia à regra. Sorri e somente nesse momento pude olhar para ela e ver sua roupa colada no corpo; a chuva me mostrava que ela já tinha pequenos seios, que já não era tão menina assim.
- Se você não gosta, não tem problema.
- Você tem visto a chuva? – foi o que me veio à cabeça naquele momento.
Ela não entendeu e muito menos eu. Não precisou, na mais pura inocência, nossos rostos foram se aproximando e nossos lábios se tocaram pela primeira vez.
Um beijo... estávamos nos dando um beijo! Nesse momento perdemos a noção de tempo e espaço e permanecemos nos beijando até que a chuva parasse.
Fomos para nossas casas e nada mais aconteceu. Ela mudou-se com a família e, muitos anos depois, nos encontramos na saída de um cinema, nos olhamos e fomos nos aproximando lentamente, como se revivêssemos uma situação perdida do passado. Ao seu lado havia um homem e, ao meu, outra mulher. Olhamo-nos profundamente e apenas uma pergunta me ocorreu naquele momento:
- Você tem visto a chuva? Ela não sorriu e eu já não sorria há muitos anos.


sábado, novembro 11, 2006

AS IMAGENS DE "DELÍRIOS BLUES"

A reestréia de "Delírios Blues" serviu para podermos comprovar que estrávamos certos ao optar por aquele tipo de espetáculo focado ao público jovem.
Nas sessões que seguiram, sala lotada e, de fato, o público delirava. As opções da direção funcionaram perfeitamente e conseguimos apresentar um "vídeo clipe ao vivo", como propusemos.
Mas a montagem teve um alto preço: a produção era grande demais para ser encenada em qualquer teatro.
Depois da reestréia ela iria entra em cartaz em São Paulo, no Centro Cultural, mas como havia música ao vivo, e muito "pesada", tivemos problemas e não foi possível...
Depois, fomos para o Rio de Janeiro e havíamos acertado uma temporada na cidade, no entanto, mais uma vez, o tamanho da produção a inviabilizou...
"Delírios Blues" foi um sonho grande demais para os padrões de produção que tínhamos... no entanto, o mais importante nessa montagem foi a ter a certeza de que através daquela linguagem seria possível alcançar o público jovem...
Também, não posso deixar de lembrar das interpretações fantásticas de Isabel Cristina, Sandey Luís e Claudinei Brandão... Eles acreditaram no projeto desde o início e deram vida aos personagens que eu havia criado...
A direção segura de Massayuki também pode ser considerada como um dos fatores que possibilitaram com que "Delírios Blues" tivesse a cara que idealizamos... Bem, como havia dito, depois dessa peça acabei produzindo mais alguns textos com temática adolescente, mas os personagens de "Delírios Blues" talvez tenham crescido e sido revividos em outra peça minha com um triângulo amoroso: "Violência"... mas sobre essa falarei mais pra frente...
Queria deixar de recordação uma parte do texto que foi muito difícil de ser dirigida, mas que teve uma beleza cênica impensável... mérito para Massayuki:

UM FOCO DE LUZ ACENDE SOBRE CABELO, QUE ESTÁ SENTADO, ENCOSTADO NO ANDAIME (BEM ABAIXO DE PRETO)...

CABELO - Eu cansei de pedir. Enquanto pedia, todo mundo cuspia na minha cara. Quando passei a arrancar tudo a força, passaram a me respeitar! O Cabelo do inferno rouba até seu pai... o Demônio! (gargalha) (apaga o foco de luz)
PRETO - Essa noite podia ser bem longa pra gente se vingar de todo mundo. Até quem não tivesse culpa. (apaga o foco de luz)

UM FOCO DE LUZ ACENDE SOBRE VERMELHA, EM PÉ, NO CANTO DO PALCO, ONDE CABELO ESTAVA NO COMEÇO...

VERMELHA - Da polícia! (apaga o foco de luz)
CABELO - (acende o foco de luz) Do leiteiro! (apaga o foco)
PRETO - (acende o foco) Da padre! (apaga o foco)
VERMELHA - (acende o foco) Do camelô! (apaga o foco)
CABELO - (acende o foco) Do barbeiro! (apaga o foco)
PRETO - (acende o foco) Do presidente! (apaga o foco)
VERMELHA - (acende o foco) Da cafetina! (apaga o foco)
CABELO - (acende o foco) Do costureiro! (apaga o foco)
PRETO - (acende o foco) Do indigente! (apaga o foco)

CONFORME CONTINUAM FALANDO, DEVIDO A RAPIDEZ, OS FOCOS DE LUZ NÃO CONSEGUEM ACOMPANHÁ-LOS; COM ISSO, AS LUZES FICAM “PISCANDO” E “CORRENDO” ATRÁS DE QUEM ESTÁ FALANDO...

VERMELHA - Da santa!
CABELO - Do santo!
PRETO - Da igreja!
VERMELHA - Do demônio!
CABELO - Do diabo!
PRETO - Do inferno!
VERMELHA - Do céu!
CABELO - Do mar!
PRETO - Da terra!
VERMELHA - Do pai!
CABELO - Do filho!
PRETO - Do espírito santo!
VERMELHA - Da miséria!
CABELO - Da fome!
PRETO - Da dor!
VERMELHA - Do sangue!
CABELO - Da doença!
PRETO - Da dor!
VERMELHA - Da dor!
CABELO - Da dor!
PRETO - Da dor!
VERMELHA - Do meu pai! (o foco de luz fica aceso nela)
CABELO - Do meu pai! (o foco de luz fica aceso nele)
PRETO - Do meu pai! (o foco de luz fica aceso nele)
VERMELHA - Da minha mãe!
CABELO - Da minha mãe!
PRETO - Da minha mãe!
VERMELHA - Da falta deles!
CABELO - D’eles existirem!
PRETO - Não nos aceitarem!
VERMELHA - Da vida!
CABELO - Da morte!
PRETO - Da gente!


AS LUZES SE APAGAM.

segunda-feira, novembro 06, 2006

DA ESTRÉIA CAÓTICA À RECUPERAÇÃO

Lembrar de "Delírios Blues" é perceber como um projeto pode ser tão prazeroso e, ao mesmo tempo, caótico! Bom, nossa ambição ao produzir essa peça era de que pudéssemos fazer algo grandioso para, em seguida, seguirmos numa temporada regular em São Paulo e Rio de Janeiro.
No entanto, o tamanho dos nossos sonhos nos levou a caminhos demasiadamente complicados. Primeiramente decidimos fazer a trilha sonora da peça ao vivo, com uma banda tocando sobre os andaimes que compunham o cenário.
Sobre o cenário é preciso dizer que ele era realmente imponente. Vários andaimes de 3 metros de altura sobre o palco para que se parecesse com uma fábrica em construção, ou, quem sabe, sustentando o que daquilo restava... uma carcaça de automóvel... vários latões de ferro... pilhas de jornais... um local muito sujo que lembrava cenários de revistas em quadrinho - nossa inspiração original.
Para que os ensaios transcorressem tivemos que utilizar um galpão... os ensaios musicais sempre foram muito difíceis, no entanto, a banda superou-se e auxiliou na composição dos arranjos das músicas.
Trabalhar com som ao vivo demanda uma aparelhagem muito boa, senão o espetáculo corre o risco de não acontecer. Essa lição demoramos um pouco para aprender.
Para a estréia no teatro Polytheama, em Junidiaí/SP, tivemos mais de 1200 espectadores... um público dificilmente visto para produções teatrais locais ou de fora. A propagando do espetáculo foi perfeita e todos queriam ver "a peça de ação", o "vídeo clipe ao vivo"!
Mas as coisas não saíram exatamente como o esperado. O equipamento de som deu problema e, como os atores também utilizavam microfones durante a peça... foi terrível... Um pesadelo que nunca deveria ter acontecido! Toda a concepção visual do espetáculo foi comprometida pelo problema com o som.
E pensar na dedicação dos atores que treinaram rapel, tirolesa, canto... fizeram preparo em academia para criar as perseguições entre os andaimes... tudo isso deu errado quando o som falhou...
Mesmo assim, eu e o sandey ainda acreditamos no projeto... saíamos que havia sido apenas um problema localizado, que assim que fosse resolvido, teríamos condições de mostrar ao público o grande espetáculo que idealizamos!
Depois da estréia tivemos que parar por algum tempo e o Claudinei acabou entrando em mais uma produção do Parlapatões... era uma perda difícil de substituir porque ele havia criado tão bem o personagem que, ao invés de Careca, tornou-se Cabelo.
Mas em pouco mais de dois meses o espetáculo reestreou e, como eu havia participado de todo o processo de ensaios, acabei assumindo o papel do Claudinei... substituindo-o, mas utilizando toda sua criação...
A estréia foi esquecida e "Delírios Blues" aconteceu!
Essa é uma das músicas mais linda composta pela Isabel Cristina, cantada por Preto e pelo vocalista da banda, Marcelo:

“Quem amou a semente nua
que a rua enlaçou
e fez calar seu canto
e tanto pranto rolou
não bastou... (2x)
Quem sentiu
a veia cheia de veneno e amor
no despertar da flor
rasgada,
suja,
feia,
não conheceu sua cor.
Quem ouviu numa lenta agonia
o soluçar contido da vida vazia e fria
que a noite estancou
não parou...
E amanheceu
o dia, o dia, o dia
mas ninguém notou
e nem poderia entender a dor
mas veria Vermelha,
morta no asfalto,
a flor...”

domingo, novembro 05, 2006

INICIANDO "DELÍRIOS BLUES"

Acredito que terei algumas coisas para falar dessa peça, até porque, ela deu início a um período de minha vida que dediquei-me a textos com temática adolescente.
Eu tinha escrito a sinopse dessa peça em 1994, e também feito algumas cenas... pretendia fazer um musical, mas minhas limitações artísticas não permitiram.
Em 1997, em conversar com o ator Sandey Luís - que havia trabalhado comigo no período que eu fazia parte de uma Cia teatral em Jundiaí -, lhe falei sobre um texto que tinha e que gostava muito, mas ainda escontrava-se incompleto. Na época ele se chamava "Delírios Blues, I Love You!".
O Sandey gostou do texto, mas ainda achou curto... também havia o problema com relação à parte musical... Mas mesmo assim ele resolveu assumir a produção do espetáculo comigo...
Reescrevi o texto, inseri algumas cenas que resolviam as tramas das personagens e, para compor as músicas, convidamos outra amiga antiga, Isabel Cristina - que trabalhara comigo em "Av. Ipiranga, 1972".
Tenho a dizer que ela conseguiu transformar o que eu pretendia em letras maravilhosas... até porque, a angústia das personagens são expressas na parte musical do texto. A partir desse momento, precisávamos de um diretor que pudesse transformar em "teatro" o que havíamos idealizado... em muitos momentos chegávamos a caracterizar nossa proposta de "um vídeo clip ao vivo" ou "uma peça de ação"... Sabíamos que essas caracterizações poderiam gerar muita crítica por parte do meio teatral, mas era o que pretendíamos...
O Sandey havia sido dirigido, pouco tempo antes, por Massayuki Onishi na peça "Palhaços" e o resultado foi explêndido... conversamos com o Massayuki e ele adorou nosso projeto... iria dirigir a peça... Para completar o grupo precisávamos encontrar os personagens que faria Careca e Vermelha... porque o personagem Preto seria interpretado pelo Sandey...
Depois de alguns testes e muita dificuldade, chegamos ao elenco ideal: Isabel Cristina e Claudinei Brandão assumiram os personagens...
Mas o processo foi difícil e merece outras notas... depois falo mais sobre isso...

sábado, novembro 04, 2006

CONTRATO FATAL

Em 1997 fui procurado por uma pessoa que conheci durante o Festival de Teatro de São Paulo - época que apresentei “Dias Difíceis...” -, Fausto Silvester. Ele, na ocasião estava dirigindo uma adaptação de “O Primo Basílio” e convidou-me para assisti-la e conversarmos sobre um projeto que gostaria de desenvolver.
Assisti ao seu espetáculo e, durante nossa conversa, ele disse que gostaria de montar uma peça que fosse completamente diferente de tudo que havia feito até então. Queria uma peça que abordasse relacionamentos atribulados... para apenas dois atores. Até aí não achei nada de novo!
Conversamos bastante e, por fim, ele me fez o convite para escrever "sua peça". Pensei bem e aceitei. Trabalhar com relacionamentos sempre me agradou e, como gostei muito do trabalho de direção do Fausto, aceite.
Ele pediu que o texto tivesse alguns “ingredientes” mais: 1) contato físico entre os atores; 2) bastante “ação”; 3) suspense; 4) sensualidade; e, 5) reviravoltas... Pensei que ele estivesse encomendando um roteiro de filme, mas não, era uma peça mesmo!
Fiz um primeiro tratamento para o texto e enviei para o Fausto... ele gostou mas pediu algumas alterações... ainda não havia conseguido desenvolver todos os “ingredientes” no texto!!!
Lembro-me que fiz mais quatro versões... o Fausto gostou do resultado final e eu achei que havia conseguido criar um thriller para o teatro... Pretensão??? Não sei muito bem, mas o resultado final do texto funcionou e, ainda por cima, tinha o que o Fausto havia pedido!
O projeto entrou em pré-produção e o Fausto contatou bons atores que se comprometeram em participar da peça... Durante as leituras ele percebeu que o clima que havia sido criado no texto conseguia ser mantido em cena... mas ainda havia o desafio de resolver a cena final!!!
Nesse meio tempo fui trabalhar em outro projeto: “Delírios Blues” e o Fausto continuou na captação de recursos... Em vários momentos discutimos sobre como deveriam ser os perfis dos personagens, isso porque, as idades deles podem ser bastante distintas, desde que a direção assim opte... o texto não especifica e sua estrutura funciona bem para dois jovens, um jovem e uma mais velha, ou mesmo, uma jovem e outro mais velho...Bom... infelizmente a peça acabou não sendo encenada, mas as leituras demonstraram que ela tem amplas possibilidades... no entanto, ainda faria outro trabalho com o Fausto... uma das pessoas que melhor entendeu meus textos!

sexta-feira, novembro 03, 2006

UMA HISTÓRIA DE AMARGAR

“Uma História de Amargar” devo, em grande parte, a meu amigo Claudinei Brandão. Em 1997, quando ele já trabalhava com os Parlapatões, nos encontramos e ele disse que gostaria de montar uma peça para si e outro amigo.
Na verdade, sua proposta era que eu escrevesse um texto que pudesse ser encenado na rua, até porque, a intenção dele era apresentar “em qualquer lugar”. Eu não gosto muito de peças interativas, mas ele disse que gostaria que essa o fosse, porque esse tipo de encenação é a que mais chama a atenção do público. Conheci o outro ator que seria seu par e a primeira impressão que tive foi de que seria uma dupla “peso pesado”!
Pensando nisso, e no aspecto popular que ele queria que eu incutisse no texto, comecei a imaginar saídas para desenvolver a trama. Não estava sendo muito feliz nisso! Parecia que não seria capaz de desenvolver aquele tipo de linguagem.
Apesar de estar escrevendo para o outro ator (que não me lembro o nome), em todo o momento eu pensava no Gerson de Abreu (naquela época ainda estava vivo) para ser parceiro do Claudinei.
Enrolei o quanto pude para iniciar a redação do texto, o Claudinei tinha pressa e queria dar início à produção. Como eu não conseguia saber muito bem como desenvolveria a trama, cada vez que ele me ligava e perguntava como estava o texto, eu, para não confessar que não andava para lugar algum, inventava o desenvolvimento do trama.
Ele me perguntava como iria resolver tal cena e eu inventava algo na hora... às vezes discutíamos saídas melhores, às vezes conseguia satisfazê-lo com minha opção... Só sei que assim que desligava o telefone, corria para o computador e escrevia uma parte do texto.
Quando consegui conclui-lo, o Claudinei acabou assumindo outra produção do Parlapatões e não pôde fazer “Uma História de Amargar”... teríamos que adiar mais uma vez nossa pareceria em um texto meu!
O mais interessante nesse texto, que conta a história de dois trambiqueiros que acabaram de fugir de uma cidade carregando apenas uma carroça, é a possibilidade que existe de os dois duplicarem seus papéis interpretando dois outros que estão presos na carroça. A linguagem é bastante acessível para poder alcançar qualquer público e a trama é uma grande piada.Gostaria muito que esse texto fosse encenado pelo Claudinei Brandão e Jô Soares... seria uma dupla de peso e a altura da proposta... quem sabe em breve isso venha a acontecer!

quinta-feira, novembro 02, 2006

OS ESQUECIDOS

Gostaria muito que essa peça estivesse ao nível do grande filme de Buñuel, no entanto, a semelhança com meu texto se resume ao nome.
"Os Esquecidos" foi escrito em uma noite. Comecei a fazê-lo como se, de fato, estivesse ouvindo a conversa entre os dois personagens - Guel e Reginho.
A história é bem simples: após uma acidente aéreo, os dois únicos tripulantes tentam encontrar maneiras para continuarem vivos. As discussões entre eles se alternam. Em alguns momentos um acredita que será possível sair vivo dali, no seguinte já não acredita na salvação.
A trama se desenvolve até chegar ao climax onde uma revelação é feita.
Por duas vezes essa peça entrou em pré-produção, no entanto, ainda não foi montada. Tive a oportunidade de conversar com as pessoas que adquiriram os direitos para a montagem do texto na época e, meu maior questionamento se dava no sentido de saber o porquê de eles terem escolhido justamente esse texto.
A resposta nem sempre era simples de ser dada... por alguma razão não muito objetiva, a conversar e os dilemas dos personagens eram os fatores que mais chamavam a atenção.
Algum tempo depois de ter escrito o texto, um amigo muito próximo o leu e perguntou-me o porquê de eu ter feito um texto tão pessoal. Naquele momento não havia entendido como ele chegara àquela conclusão. Ele, que conhecia muito minha vida e minhas peças, disse: "parece que você está conversando com seu irmão!". Ele havia morrido alguns meses antes...
Acredito que tenha sido a última conversa que não tive com meu irmão... uma discussão sobre temas que nunca foram colocados à mesa... Mas, antes de tudo, é uma peça que gostei da maneira como desenvolvi o texto... espero que em breve possa vê-la montada!

GUEL CORRE E SENTA-SE NOVAMENTE NO ALTO...

REGINHO - Você tá mais calmo?
GUEL - Igual.
REGINHO - Vê se consegue enxergar alguém por aí.
GUEL - (desiludido) Eu nem sei quanto já fiquei aqui esperando enxergar alguém.
REGINHO - Quem sabe não vai ser hoje.
GUEL - Por que hoje?
REGINHO - Porque não foi ontem.
GUEL - E nem será amanhã.
REGINHO - Se você tá tão desanimado assim, então por que olha?
GUEL - (amargurado) Porque ainda não fiquei cego.
REGINHO - Você se importa se eu subir aí com você?
GUEL - Você nunca gostou de lugares altos.
REGINHO - Tudo bem, se você não quiser...

GUEL - Faça o que quiser.

REGINHO SOBE CUIDADOSAMENTE E SENTA-SE AO LADO DE GUEL...

REGINHO - Daqui você tem uma boa visão de tudo.
GUEL - Que não me serve pra nada.
REGINHO - Basta pela beleza.
GUEL - Há muito tempo que isso deixou de ser belo.
REGINHO - Então foi algum dia.
GUEL - Num passado remoto.
REGINHO - Por que você não tenta reviver esse passado?
GUEL - Pra quê?
REGINHO - Talvez seja melhor pra você.
GUEL - Não vejo no que melhoraria minha vida.
REGINHO - Você deixaria de ser tão amargo e poderia enxergar alguma saída nesse marasmo que nos encontramos.
GUEL - Não há saída, vamos morrer.
REGINHO - Mas isso te preocupa tanto?
GUEL - Acho que sim.
REGINHO - Como?
GUEL - Deve doer muito.
REGINHO - O que mais te assusta na morte?
GUEL - A dor.
REGINHO - A dor na carne?
GUEL - A dor simplesmente... de toda maneira que ela possa se manifestar.
REGINHO - E se não houver dor?
GUEL - Sempre haverá.
REGINHO - Como você sabe?
GUEL - Eu sinto.
REGINHO - Você sente a dor da morte?
GUEL - É uma dor sem nome, apenas dói.
REGINHO - Vai passar.
GUEL - Quando, se desde que chegamos aqui ela só faz doer ainda mais?!!!
REGINHO - Mas vai passar.
GUEL - Só se for quando eu morrer.
REGINHO - Você não vai estar sozinho.
GUEL - Eu sinto que nós estamos cada vez mais distantes.
REGINHO - (abraça Guel) A gente vai sair daqui juntos!
GUEL - Você ainda acha que a gente sai daqui?
REGINHO - Não sei se isso tem tanta importância.
GUEL - Parece que você já se conformou com a morte.
REGINHO - Eu não tenho medo dela.
GUEL - Nem da dor?
REGINHO - Mas que dor é essa?
GUEL - Uma dor latente e crescente.
REGINHO - Pois eu não tenho medo dela.
GUEL - Eu não gostaria de senti-la.
REGINHO - Mas é inevitável?
GUEL - A dor sempre vai arder!
REGINHO - E não tem jeito de evitar?
GUEL - Não morrendo.
REGINHO - Nós estamos vivos!
GUEL - Até quando?


REGINHO SOLTA O BRAÇO LENTAMENTE DOS OMBROS DE GUEL E VAI SE AFASTANDO... PERMANECEM SENTADOS DISTANTES, OLHANDO PARA FRENTE...

UM TEMPO NO TEATRO

Depois de ter escrito “Adeus, meninos” fiquei um bom período sem escrever peças. Durante o ano de 1996 trabalhei na recém-criada TV Educativa de Jundiaí. Vislumbrei a possibilidade de voltar a trabalhar com vídeo e aproveitar minha experiência dramatúrgica para a nova TV. Na primeira reunião que tive com o diretor da TV fiz uma proposta desafiadora a ele: que me deixasse produzir uma série de comerciais institucionais que, se o resultado não fosse satisfatório, não precisaria nem me pagar pelos serviços. Mas eu gostaria de ter a possibilidade de roteirizar, produzir e dirigir os comerciais. Ele aceitou. Fui incumbido de criar uma campanha de prevenção à AIDS, mas não queria que os comerciais se parecessem com os que estavam sendo vinculados à época, assim, criei um roteiro como se tivesse escrevendo um curta-metragem e convidei o ator Sandey Luís para interpretar meu personagem. O resultado foi muito melhor do que havia projetado. A equipe que trabalhou comigo aceitou minha proposta diferenciada da linguagem jornalística que utilizavam e colaborou muito na gravação. Por utilizar uma linguagem de ficção, o editor do comercial também deu seu toque ao produto final quando imprimiu uma edição ainda mais dinâmica. O segundo comercial para a campanha foi gravado num hospital e contei com a colaboração de vários atores que havia trabalhado no meio teatral. Eles, novamente, foram a diferença para que o comercial tivesse uma carga dramática distinta. Os comerciais foram ao ar e o resultado alcançou todas as expectativas... quando eu partiria para a gravação do terceiro comercial da campanha e já havia apresentado um projeto para fazer um documentário sobre o teatro jundiaiense e outro sobre a Floresta do Japi, problemas políticos retiraram o diretor da TV de seu posto e, juntamente com ele, deixei a TVE.Foi uma breve passagem pela TV, mas que ampliou meu conhecimento técnico sobre o meio e estimulou-me a criar outros projetos... pena que ainda continuam engavetados!
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quarta-feira, novembro 01, 2006

OS CONVIDADOS DO SR. BRASIL

Realmente, estabelecer uma cronologia exata dos eventos não é minha melhor qualidade. Digo isso porque esqueci de falar de um espetáculo que já teve duas montagens distintas, uma dirigida por Claudinei Brandão (1994) e outra por Vall Carthon (1997).
É mais um besteirol. Mais uma história muito engraçada com a presença de uma empregada que rouba a cena, Socorro. A trama é bastante simples: haverá uma recepção na mansão do Sr. Brasil e ele contrata um serviço de buffet para responsabilizar-se pelo evento.
A peça se passa na copa da mansão, enquanto trabalham para o Sr. Brasil, a empregada Socorro, seu ex-marido Emergêncio, seu irmão e mais a cunhada, também acabam utilizando o local para resolver seus problemas pessoais.
Acredito que minha intenção tenha sido mostrar que, mesmo diante do caos que acomete a vida dos funcionários do buffet, eles têm jogo de cintura suficiente para controlar a situação e, no final, nem o Sr. Brasil ou seus convidados percebem como tudo transcorreu na copa. Até caberia uma análise sociológica mais profunda, mas deixo para que o público a faça na próxima montagem...Queria dizer, também, que a montagem de Vall Carthon, que estreou na cidade do Guarujá, surpreendeu-me muito por ter ampliado a leitura de alguns aspectos do texto, mas em ambas, o sucesso deu-se devido ao humor simples e direto

terça-feira, outubro 31, 2006

ADEUS, MENINOS

Depois do fracasso de “Quincas Berro D’água” e de eu ter deixado a companhia de teatro que trabalhava, tentei imaginar qual caminho deveria seguir adiante. A vantagem de trabalhar com uma companhia teatral estável, pelo menos para mim, deu-se no sentido de servir como incentivo para que eu produzisse muito... muito mesmo! Mas não havia como permanecer num grupo com objetivos tão distintos... precisaria trilhar minha carreira separadamente!
Assim, a partir de 1995, quis experimentar outras formas de dramaturgia. E, nesse sentido, o primeiro experimento foi uma das peças que mais gosto até hoje: “Adeus, meninos”.
Sempre gostei de histórias com temática política e, nesse universo, o período de repressão que o Brasil passou nas décadas de 1960 e 1970, foi objeto de muita leitura. Acho que o primeiro livro que li sobre o tema foi “O que isso companheiro?”, de Fernando Gabeira. Fiquei fascinado pelo engajamento político da juventude e sua coragem de lutar por um ideal... acabei lendo vários livros sobre o tema.
O processo de criação de “Adeus, meninos” foi completamente distinto de tudo que eu fizera até então. Criei os personagens e comecei a escrever cenas que os apresentasse... mas a diferença estava no fato de que eu trabalhava com quatro momentos de suas vidas: aos dez anos, aos quinze, aos vinte e aos sessenta... As cenas foram escritas separadamente, mas quando fui montar a ordem do espetáculo, quebrei completamente a ordem cronológica...
A peça inicia-se com Thiago e Pablo, com dez anos, falando sobre uma determinada menina... como nas demais peças que escrevi, a temática da amizade estava muito presente. Na seqüência vemos Thiago com vinte anos... e assim por diante... Cenas curtas, linguagem direta e uma sensação de que a cada cena estaria sendo colocada mais uma peça do quebra-cabeça que formava a trama.
Nas primeiras leituras do texto, a sensação que gerou aos atores foi a de haver uma tensão crescente na trama mas que não dava pra saber onde iria chegar... Entendi que havia conseguido alcançar meu objetivo.Essa peça nunca foi encenada... mas de tanto eu gostar da trama, adaptei-a para o cinema e escrevi o roteiro “Os meninos da casa da árvore”... Espero que a história de amizade entre Thiago, Pablo e Mariana torne-se conhecida um dia, até porque, é um texto que freqüentemente releio para saber que é sobre isso que quero escrever... amizade, em suas múltiplas formas!

Essa é uma das cenas da peça que mostra o estado de desolação que Mariana, mais velha, vive depois de ter acontecido algo muito grave em sua vida...

CENA III - O ELEVADOR

MARIANA, UMA VELHA SENHORA, ENTRA VAGAROZAMENTE NO HALL DE SEU PRÉDIO E VAI ATÉ O ELEVADOR. CARREGA CONSIGO UMA SACOLA DE SUPER MERCADO... ELA CHEGA ATÉ O ELEVADOR E APERTA O BOTÃO PARA ELE “DESCER”... FICA AGUARDANDO QUANDO ENTRA UMA MENINA DE APROXIMADAMENTE QUINZE ANOS E APERTA O BOTÃO DO ELEVADOR...

MENINA - Tô super atrasada, só vai dar tempo de almoçar e voltar pra escola. Hoje eu tive três provas.
MARIANA - (falando somente por educação) Deve ser bem difícil.
MENINA - É nada, se eu não tivesse preparado a “cola”, aí seria difícil, mas eu tava preparado. (olha para o elevador) E esse elevador que não chega!
MARIANA - Ele já deve estar descendo.
MENINA - A senhora tem tempo pra esperar, eu não posso. Minha vida é uma correria.
MARIANA - (pensativa) Eu posso esperar...
MENINA - A senhora não se cansa de ficar sozinha?
MARIANA - A gente se acostuma.
MENINA - (furiosa) Não dá pra se acostumar é com esse elevador.

ENTRA NO PRÉDIO UM HOMEM DE APROXIMADAMENTE 28 ANOS, VESTINDO UM ELEGANTE TERNO AZUL MARINHO E CARREGANDO UMA PASTA...


HOMEM - (apertando o botão do elevador) Boa tarde.
MENINA - (insinuante) Oi!
MARIANA - (sóbria) Boa tarde.
HOMEM - Hoje o dia tá uma correria, parece que tudo resolveu acontecer de uma vez.
MENINA - É o que eu tava falando pra Dona Mariana.
HOMEM - (para Mariana) A senhora viu se minha mulher já chegou?
MARIANA - Não.
HOMEM - É que a senhora quase não sai.
MARIANA - Hoje eu não vi a sua mulher.
HOMEM - Ela deve ter ficado presa no trânsito, (pensativo) vou ter que fazer o almoço. Tomara que dê tempo!
MENINA - (insinuante) Minha mãe já deve ter feito o almoço, se você quiser almoçar em casa, não vai ter nenhum problema.
HOMEM - Obrigado, eu não posso. Fica pra uma outra vez. (aperta o botão do elevador novamente) Tá demorando, né?
MENINA - Vou acabar indo de escada.
MARIANA - Ele já deve estar descendo.

ENTRAM DOIS MENINOS DE UNS DEZ ANOS, VESTIDOS DE UNIFORMES ESCOLARES...

MENINO 1 - (apertando o botão do elevador) Vai começar o jogo.
MENINO 2 - Se essa droga demorar, a gente vai acabar perdendo o começo.
MENINA - Aqui não é lugar de fazer barulho.
MENINO 2 - Você é velha por acaso?!
HOMEM - (reprimindo) Quietos.
MENINO 2 - (olhando para Mariana) Eu não vi a senhora aí.
MARIANA - Não tem problema.
MENINO 1 - É que o jogo vai começar, é a final.
MENINO 2 - Eu apostei que ia ser dois a zero.
MARIANA - Tomara que você ganhe.
MENINO 1 - Tomara nada, vai ser é três a zero, mas pro meu time.
MENINO 2 - Até parece que aquele timinho vai conseguir ganhar do meu.
MENINA - Alguém deve tá segurando o elevador lá em cima.
HOMEM - (batendo na porta) Solta o elevador!

ENTRA UMA MULHER COM UM CARRINHO DE FEIRA...

MULHER 1 - (passando por Mariana) A senhora me dá licença que eu tô acabada, (aperta o botão do elevador) fazer feira é de arrasar.
MARIANA - Claro.
MULHER 1 - (para a menina) Fala pra sua mãe passar lá em casa.
MENINA - Minha mãe não tem tempo pra ficar vadiando.
MULHER 1 - Olha lá como fala comigo, sua moleca!
MARIANA - (apaziguando) Esse elevador está demorando.
MENINO 1 - Você vai lá em casa ou eu vou na sua?
MENINO 2 - Teu irmão vai tá lá?
MENINO 1 - Claro, ele não larga da televisão.
MENINO 2 - Então é melhor a gente ir lá pra casa porque eu não vou com a cara dele.
HOMEM - Esse elevador tinha que encrencar logo agora!

ENTRA A MULHER DO HOMEM QUE HAVIA CHEGADO POUCO ANTES, ESTÁ MUITO APRESSADA E ENCONTRA AQUELE AGLOMERADO EM FRENTE AO ELEVADOR; ELA ESTÁ MUITO BEM VESTIDA...USANDO SALTO ALTO QUE APERTA SEU PÉ...

MULHER 2 - (para o Homem, seu marido) O que você tá fazendo aqui?
HOMEM - Esse maldito elevador.
MULHER 2 - E o almoço?
HOMEM - É isso que eu tô pensando.
MULHER 1 - Alguém tem que dar um jeito nisso.
MENINO 1 - (para Menino 2) Bate na porta.
MENINO 2 - E eles não vão falar pro síndico?!
TODOS - (exceto Mariana) Bate logo!

MENINO 2 CHUTA A PORTA DO ELEVADOR DESESPERADAMENTE ENQUANTO O MENINO 1 GRITA E VIBRA... APÓS ALGUNS INSTANTES E NENHUM RESULTADO, ELE PÁRA DE CHUTAR E TODOS VOLTAM A ESPERAR CHATEADOS...

MULHER 2 - Hoje não é o meu dia. (tira os sapatos)
MARIANA - Será que aconteceu algum acidente?
MULHER 1 - (esbravejando) Algum moleque vagabundo que deve ter prendido o elevador pra fazer graça.
MENINA - (jogando os livros no chão) Eu não acredito!!!

ELEVADOR CHEGA DE REPENTE E TODOS PEGAM SUAS COISAS RAPIDAMENTE E ENTRAM NELE, MARIANA FICA SEGURANDO A PORTA E POR FIM, ACABA NÃO ENTRANDO DEVIDO ELE ESTAR LOTADO...

HOMEM - Solta a porta, Dona Mariana.
MULHER 1 - A senhora sobe depois; não tem nada pra fazer mesmo.
MARIANA - (soltando a porta)(caindo em si) É...não tenho nada mesmo pra fazer.

A PORTA SE FECHA E O ELEVADOR SOBE...MARIANA FICA ALGUNS INSTANTES OLHANDO PARA ELE...

MARIANA - (lamentando) Já faz tempo que pouco importa subir ou descer. (pára alguns instantes e depois aperta novamente o botão do elevador)

ENTRA UM RAPAZ COM UMA ENCOMENDA, VAI ATÉ O ELEVADOR E APERTA O BOTÃO...

RAPAZ - Hoje o dia tá uma correria, depois dessa encomenda preciso entregar mais quatro.
MARIANA - (pressentindo o que iria acontecer novamente) É... (se vira e vai saindo)

RAPAZ APERTA NOVAMENTE O BOTÃO DO ELEVADOR E AS LUZES VÃO SE APAGANDO...

A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D'ÁGUA

O segundo semestre de 1994 foi marcado pelo final das produções que estavam em andamento na Cia Teatral que eu participava e início de um projeto que visava ampliar sua visibilidade.
Havíamos chegado à conclusão de que deveríamos montar uma comédia e que deveria ser um texto de um autor consagrado. Queríamos que fosse um autor nacional. Pesquisamos várias possibilidades mas acabamos concluindo que o mais interessante seria Jorge Amado.
A partir daí lemos vários de seus romances até chegarmos ao esplêndido "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água". Esse texto parecia que tinha sido escrito para nós... e, os problemas relativos à quantidade de personagens ser maior que a possibilidade do elenco encenar, resolvemos que utilizaríamos bonecos.
Em pouco mais de três meses já havia feito a adaptação e iniciado o preparo dos atores... Nesse meio tempo surgiu a possibilidade de irmos para a Bahia conhecer melhor o universo das personagens que iríamos encenar. Durante janeiro de 1995 estivemos em Ilhéus e Salvador... conhecemos as vielas por onde nosso personagens transitaram, os cortiços que moraram... Entendemos melhor Jorge Amado.
Mas o melhor estava por vir. Certo dia, enquanto estávamos no hotel, uma das atrizes do elenco, Isabel Cristina, resolveu telefonar para a residência de Jorge Amado e verificar a possibilidade de ele nos atender para falar um pouco mais de Quinca Berro D'água... A secretária dele pediu para retornarmos a ligação alguns minutos mais tarde e, quando assim fizemos, surgiu a
oportunidade de conversarmos com ele por 20 minutos. Depois, ele teria uma sessão com o fisioterapeuta.Fomos para sua casa e tivemos a oportunidade de conversar com ele, Zélia Gattai e sua filha Paloma... quando estava quase na hora de irmos embora, ele nos informou que poderíamos conversar mais porque a sessão de fisioterapia havia sido cancelada...
Ele contou tantas histórias sobre as personagens, Salvador e seu universo...
Foi um dos momentos mais importantes de minha vida... e, para mim, um momento especial quando perguntei-lhe sobre as adaptações que fazem de seus textos. Muito gentilmente, Jorge Amado disse que aceitava todas as adaptações porque sempre tenham algo a contribuir!!! Como contribuir com obras-primas????
Voltamos de Salvador empolgados, mas descobri que não teria capacidade para dirigir o espetáculo que havia escrito... a companhia teatral cindiu-se e "Quincas Berro D'água" nunca saiu do papel...

QUINCAS - ME ENTERRO COMO BEM ENTENDER
NA HORA QUE RESOLVER.
PODEM GUARDAR SEU CAIXÃO
PARA MELHOR OCASIÃO.
NÃO VOU DEIXAR ME PRENDER
EM COVA RASA NO CHÃO.
...DEIXAR ME PRENDER
EM COVA RASA NO CHÃO.

Por essa beleza de texto que inspirou a peça que considero um de meus melhores trabalhos... Também, guardo uma lembrança bonita desse momento por mais duas razões: primeiramente porque foi minha primeira adaptação de uma obra literária; e, segundo, porque tive a oportunidade de conversar com Jorge Amado sobre seu processo de criação. Por isso, mesmo que "Quincas..." não tenha sido montado naquela ocasião, ensinou-me muito!

LOVE IS LOVE PARA SEMPRE

Agora que estou escrevendo esse blog, sou obrigado a relembrar de projetos e experiências dramatúrgicas que não me lembrava mais que tinha feito. Algumas delas tiveram resultado bastante interessante, dentre elas, queria falar de “Love is Love para sempre”.
Escrevi esse musical em 1993. Na época pensei em utilizar um espaço alternativo da cidade de Jundiaí para que o grupo teatral que eu trabalhava expandisse suas possibilidades artísticas. Entramos em contato com uma casa de shows e eu iniciei a pesquisa musical... E que pesquisa – um segundo desafio porque não conhecia esse gênero musical e, tampouco gostava do estilo!!!
Com o grande auxílio de Claudinei Brandão, passei a ouvir muitas músicas das décadas de 70 e 80 que tivessem apego popular – ou seja, bregas! Horas e horas ouvindo José Augusto, Jane e Herondi, Perla, Gigliard, Grupo Dominó, Moacir Franco, Barros de Alencar, Antônio Marcos, Waldick Soriano, Odair José... e todos mais que o Claudinei conseguiu junto as suas fontes!
Escrevi uma peça que tivesse o formato de um programa de auditório e que os dois apresentadores recebessem seus convidados... Esses convidados cantariam as músicas escolhidas dentre o repertório que selecionei e, ao mesmo tempo, teriam suas vidas envolvidas em assuntos relacionados a dos apresentadores.
Haveria música ao vivo e os atores da companhia teatral interpretariam os cantores-convidados... Fizemos algumas leituras do texto, mas... por razões que nem mais me lembro – acredito que tenha sido algum problema relacionado à produção, falta de dinheiro! –, a peça não saiu.Reli essa peça anos atrás e ainda consegui rir com o “humor brega popular” dos dois apresentadores de “Love is Love Para Sempre” – Vaninha e Lourival –, isso me fez crer do potencial do espetáculo... um tipo de humor que não mais consegui reproduzir... nem fui desafiado a fazê-lo!

domingo, outubro 29, 2006

DISCURSOS TRANCADOS NUMA ILHA VAZIA

Tinha me esquecido de comentar sobre esse texto. “Discursos Trancados numa Ilha vazia” é anterior à “Dias Difíceis Dentro Da Dor Do Desencontro”, é um dos textos mais depressivos que escrevi. A história de três personagens que perderam a razão de viver e, por mais que neguem isso, constatam que o mundo não foi feito para eles.
A história se passa num bar decadente... poucos clientes e menos perspectivas ainda de que ali surja a razão para continuarem vivendo. Depois que as portas se fecham, Jordão (o dono do bar), Lenny (uma espécie de animador do bar, que conta piadas e casos) e Kamilla (uma prostituta muito bonita) expõem suas mazelas e tristezas... revelam segredos, desejos e decepções.
Escrevi esse texto num momento bem deprê de minha vida... já fiz algumas leituras com atores, mas nunca montei... É um dos textos que gosto pelas opções dramatúrgicas que utilizei... mesmo sendo um dos primeiros a ter sido escrito, já tentei impor uma linguagem que viria desenvolver futuramente... seca e dinâmica...O cartaz utilizado é uma explícita referência ao filme que também me influenciou: Lenny.
Curiosamente, o nome Kamilla ainda seria utilizado por mim em vários outro personagens importantes, no entanto, essa constatação foi de um amigo que já leu várias peças minha... nunca utilizei propositalmente!

sábado, outubro 28, 2006

UM DOCE DE MENINA

Nem tudo que escrevi, nos loucos anos de 1994, acabou sendo encenado. A peça "Um Doce de Menina" é um exemplo disso. Como havia muitas produções ao mesmo tempo na companhia teatral que eu fazia parte e, nem todos os atores participavam de todas as peças, certo dia, Elaine Braga, Felipe Nonato e Vanderlei Ienne pediram para que eu escrevesse uma peça para eles... Outra encomenda, mas a única coisa que pediram era que fosse para apenas três personagens...
Pensei bastante e acabei criando uma trama rural, mas com alguns aspectos trash... A história de uma doce menina que vai morar na casa de um poderoso fazendeiro e o seduz até que consegue se casar com ele. Mas, não satisfeita, passa a envolver o capataz num triângulo amoroso...
Fizemos várias leituras mas a montagem não saiu... Alguns anos mais tarde (1998), Antônio de Andrade, que já havia encenado "O Trambique Nosso de Cada Dia", dirigiu a leitura dramática desse texto na Sociedade Gastão Tojero, em São Paulo.
Com um humor negro e, algumas vezes, fora do convencional, o público que assistiu à leitura acabou se envolvendo e divertindo-se bastante...
Mas devo aos meus amigos Vanderlei, Felipe e Elaine, mais essa criação!

THE BEST CONTRA O HOMEM DA CABINE

"The Best..." foi criado de uma maneira bastante inusitada. Haveria um Festival de Monólogos em São Paulo, no TBC, e o grupo de teatro o qual eu trabalhava queria muito poder participar.
Eu nunca gostei de monólogos, tinha bastante dificuldade de escrevê-los... Na verdade, já havia escrito um anterior para a atriz Fernanda Regia participar de outro festival, mas tinha sido minha única experiência e eu achava que seria a última!
Enfim, surgiu o Festival e eu me comprometi a pensar em algum argumento, assim, caso sentisse que seria possível desenvolvê-lo, faria o monólogo. Lembrei-me de que havia escrito um monólogo cuja ação se passava na Idade Média, num castelo qualquer. A Fernanda leu o texto e ficou sem coragem de dizer-me o quanto era ruim.
Conversando com os atores do grupo, comentei como era ruim o monólogo que se chamava "Vá dar um beijo na boca dela antes que morras!". Acharam que era muito trash, então, aos nos estendemos na conversa, passamos a falar das falhas que aconteceram durante os espetáculos, os Festivais, etc... Pensei um pouco mais e surgiu o monólogo "The Best contra o Homem da Cabine".
Elaine Braga foi escolhida para fazer a personagem e a direção coube ao meu grande amigo, Claudinei Brandão. Ensaiamos e a peça estreou no final de 1993, no Festival de Monólogos do TBC.
Nessa primeira apresentação aconteceu a cena mais inusitada que nunca imaginei... Logo na primeira cena, Elaine entrava em cena muito tensa, demonstrando dificuldade para expressar seu texto... A tensão chega num limite tal que, sem conseguir se controlar, a Elaine parou a peça, pediu desculpas ao público e disse que iria recomeçar...
Um dos jurados levantou-se furioso e disse que era um absurdo um ator interromper o espetáculo... que ele deveria ir até o fim, qualquer que fosse o problema! A platéia começou a comentar enquanto as luzes continuavam apagadas... Segundos depois, a Elaine voltou ao palco e deu continuidade ao espetáculo... o jurado morreu de vergonha ao perceber que aquele início fazia parte da peça... Acabei ganhando um prêmio por esse texto no Festival...
Onde quer que a montagem fosse, sempre gerava comentários interessantes. Quando apresentou-se no Festival de Teatro de Vitória da Conquista/BA, não estive presente no debate, mas o Claudinei comentou comigo que um dos jurados afirmou que o grande problema em julgar “The Best...” era que tudo que fosse apontado como falha, a direção poderia alegar que fazia parte da peça... Gostei muito desse comentário, mas o mérito maior foi da direção e da interpretação de Elaine Braga que fizeram com que o espetáculo adquirisse uma grandiosidade que nunca imaginei...Essa foi minha última experiência em monólogos... com “The Best contra o Homem da Cabine”...